sábado, 9 de fevereiro de 2008

minguante n.º 3

A TRAIÇÃO

[lado A] A tradução
Obrigou-se a uma escrupulosa tradução, literal, lenta e cuidada, mas quando acabou percebeu que matara o poema e não havia nada a fazer. Virou então a folha e recomeçou, desta vez atento apenas ao poema que o poema despertara em si. E foi este segundo poema, renascido, escrito nas costas do primeiro, que acabou por enviar, e ficou a pensar em quanta poesia há na traição.

[lado B] Moralistas

Apunhalou-o pelas costas, é verdade, mas primeiro explicou-lhe muito bem que só o fazia assim porque já não o podia ver pela frente.


Tinha acabado de dormir com outra mulher e não via a hora de chegar a casa e dizer à esposa. Se havia uma coisa que ele não suportava era a traição.


Amava a mulher e a amante de igual forma: o seu amor por elas não podia ser mais puro.

Luís Ene

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