quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

minguante n.º 2

Ultramarino

1

Estamos sentados numa esplanada à beira-mar, a falar disto e daquilo, e tu asseguras-me que há uma razão para o céu ser azul. Respondo-te que não preciso de razão alguma para o ver assim, e muito menos para te amar.

2

Olho-te demoradamente mas não te reconheço. Tu vês-me e vens ter comigo. Olho-te com surpresa renovada. Agora sei que és tu, mas tudo em ti me parece diferente, até mesmo o singular azul dos teus olhos.

3

Chego a casa e estás na sala. Sento-me ao teu lado, peço-te para mudar de canal e ficamos para ali em silêncio em frente à televisão. Pouco tempo depois levantas-te e vais para o computador. Insisto contigo para darmos um passeio de carro e tu aceitas. Ainda nem percorremos meia dúzia de quilómetros e já tu adormeces no meio da 125 azul.

4

E um dia vais-te embora, sem me dizeres nada, e eu decido seguir em frente e mando pintar todo o apartamento de azul.

Luís Ene

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