terça-feira, 25 de março de 2008

O QUE SEMPRE ENTRA NO POEMA

a ave
pairando sobre
a árvore

a árvore
suspensa do voo
da ave

ave
e
árvore

árvore
e
ave

uma e outra
presas num
olhar

uma e outra
soltas no
poema

[Luís Ene]

domingo, 23 de março de 2008

quase


--->

Às vezes é
preciso sair
ir embora

abandonar locais
onde há muito
chegámos

locais
onde sabemos
em tempos ter
sido felizes

E é então
que perguntamos
qual o sentido

de chegarmos
para podermos
partir

qual o sentido
de partimos
para podermos
chegar

a nós mesmos
E a resposta
tarda sempre

o que sempre fica fora do poema


--->


entre céu e mar

azul azul

a cidade


apequenada

pelas nuvens

enormes


que crescem

em branco e cinza

sobre ela


prolonga a serra

gasta e quase

desaparece


à minha frente

envergonhada

miragem


[Luís Ene]

quarta-feira, 12 de março de 2008

7x7 pequenas histórias viciadas

O MONGE
Abandonou o hábito e entregou-se ao vício.

COERÊNCIA
Profissão: percussionista. Desporto preferido: ténis. Vício: masturbação.

TEMPOS MODERNOS
Para poupar tempo fornicava sempre de pé.

CONDIÇÃO FEMININA
Sabia-lhe bem, a ele sabia-lhe ainda melhor.

A FEMINISTA DETERMINADA
Amava-o mas não tinha escolhido amá-lo. Deixou-o.

EN PASSANT

Deixou de jogar xadrez. Perdeu vinte quilos.

O VIRA-CASACAS

Morreu e passou a acreditar em Deus.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

minguante n.º 8

Exercícios para distinguir com segurança o que é leve do que é pesado

1

Pense em algo leve, muito, muito leve. Pense em algo pesado, muito, muito pesado. Repare como são semelhantes, muito, muito semelhantes.

2

Pense em cem gramas de salada de alface. Pense em cem gramas de salada de feijão. Compare-os. Atenção, muita atenção, o feijão da salada é verde.

3

Pense em algo verdadeiramente grande, enorme, esmagador. É leve ou pesado? Repare como se desloca rapidamente, com facilidade, sem esforço aparente. Se não respondeu à pergunta faça-o agora.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

minguante n.º 7

Fábula

Guardou-a em si. Todos os que se olhavam nele viam-na a ela.

Revelação

Escreveu o mundo e viu-o pela primeira vez.


Luís Ene

domingo, 17 de fevereiro de 2008

minguante n.º 6

Celebrações

[1] Faz hoje exactamente cem anos que, por dois ou três minutos, não aconteceu nada, absolutamente nada, digno de registo. O silêncio dos livros de História a este respeito é por demais eloquente.

[2] Estavam já no fim quando alguém perguntou o que se celebrava. Ninguém sabia. No ano seguinte repetiram.

Luís Ene